No
silêncio da noite santa, escuta-me. Põe de lado todo o
saber e tuas recordações; põe-te de parte e esquece
tudo. Abandona-te à minha voz, inerte, vazio, no nada, no mais
completo silêncio do espaço e do tempo. Neste vazio, ouve
a minha voz que te diz - ergue-te e fala: Sou eu.
Exulta pela minha presença: grande bem ela é para ti,
grande prêmio que duramente mereceste; é aquele sinal que
tanto invocastes deste mundo maior em que eu vivo e em que tu creste.
Não perguntes meu nome, não procures individuar-me. Não
poderias, ninguém o poderia; não tentes uma inútil
hipótese. Sabes que sou sempre o mesmo.
Minha voz, que para teus ouvidos, é terna, como é amiga
para todos os pequeninos que sofrem na sombra, sabe ser também
vibrante e tonante, como jamais a sentiste. Não te preocupes;
escreve. Minha palavra se dirige às profundezas da consciência
e toca, no mais íntimo, a alma de quem a escuta. Será
somente ouvida por quem se tornou capaz de ouvi-la. Para os outros,
perder-se-á no vozear imenso da vida. Não importa, porém:
Ela deve ser dita.